Noutro dia, ao folhear um livro de Matemática do Ensino Básico, deparei-me com a publicidade a um serviço de apoio à aprendizagem online promovido através da seguinte mensagem “Como aprender sem quase dar por isso!”. Fiquei imediatamente com a certeza de que o dito serviço não tinha nada a ver com educação porque simplesmente não é possível aprender nada “sem dar por isso”.

Mas fiquei preocupado. Mesmo muito preocupado, porque, pensando bem na experiência que tenho tido nos últimos anos, afinal muitos Pais ainda acreditam que há aprendizagem sem esforço. E o trágico é passarem esta mensagem aos seus filhos. Toda a aprendizagem exige esforço, pode é ser feita com mais, ou menos, dedicação e motivação. Se só aprendêssemos quando estivéssemos motivados teríamos certamente que arranjar outra solução do tipo “como ficar motivado quase sem dar por isso para que possa aprender”.

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Lamento dizê-lo, mas o processo natural de aprendizagem implica, em primeiro lugar, ganhar a percepção das coisas – dos números, das letras, do jogo de perder e ganhar,… – o que exige tempo e experiências em quantidade e variadas; depois, suscita a consolidação da referida percepção de como as coisas funcionam, entrando, assim, na fase do desenvolvimento de competências – “ saber adicionar, subtrair, multiplicar, dividir, resolver uma equação, calcular uma área, um perímetro ou um volume, explorar a leitura em livros variados,… – onde aplicamos as regras e os procedimentos que aprendemos e que foram consolidados ao longo de milhares de anos e, finalmente, chegamos à fase de domínio, onde juntamos a nossa capacidade criativa, a nossa capacidade de abstracção e a nossa curiosidade para descobrir “novos mundos” na Matemática, nas Ciências em geral, nas Letras.

Não há atalhos neste processo e, certamente, exige muito tempo e dedicação. Mas posso garantir-vos que este processo trará muita motivação “quase sem dar por isso”.