Dois meses passaram desde que todos tivemos de alterar as nossas vidas de um dia para o outro. Todos! Sem exceção! Uma experiência única que atravessa gerações e que nos permitiu olhar para o passado e chorar de saudade, mas também para o futuro e fazer promessas de simplicidade e harmonia. Somos todos mais emocionais do que racionais, por isso veremos como correrá o futuro. Mas esta será, certamente para toda a Humanidade, uma experiência de vida que ficará registada na sua história.
É, pois, neste contexto de partilha, que me parece importante salientar cinco aspetos absolutamente estratégicos dos efeitos desta pandemia na educação de uma criança ou jovem. Não serão os únicos pontos a analisar desta experiência, nem têm uma base científica, resultado de um estudo aprofundado feito pelos melhores. É tão simplesmente a minha análise.

Todos diferentes, todos… diferentes!

Em primeiro lugar, este ensino à distância mostrou que nem todas as famílias estão nas mesmas condições de partida, ao contrário, por exemplo, do que acontece quando se juntam todos numa mesma escola. A escola ajudou, ao longos dos anos, a democratizar o ensino, quer estando disponível para todos, quer dando o mesmo ponto de partida. Este ensino à distância voltou a aumentar a distância entre ricos e pobres. Entre os que têm e os que não têm. Nem sempre dinheiro, mas sempre prioridades.

A modernização não é por aqui

Em segundo lugar, parece-me agora claro que a evolução na educação, que tantos “gritam” nas redes sociais ser uma necessidade, não se faz com mudanças abruptas. Quer porque os educadores são variados, quer porque o cérebro humano, adulto ou jovem, precisa de tempo para assimilar determinadas alterações. Sou um grande defensor de mudanças na educação, e advogo-as há muito tempo porque vejo a sua necessidade diariamente quando trabalho individualmente com cada aluno. Mas com sentido estratégico, isto é, com a certeza de que sabemos qual é o caminho e o que ganhamos percorrendo-o.

Papéis invertidos

Em terceiro lugar, ficou também claro que pais não são professores. Nem o devem ser, sob pena de prejudicarem a sua relação com os filhos que será tão importante ao longo de toda a vida dos dois! Um professor é, por outro lado, um profissional da pedagogia que num dado momento ajuda uma criança a desenvolver-se, quer em termos de conhecimentos, mas também capacidades e atitudes. Bem sei que há professores que não o deveriam ser, tal como há pais que ainda não perceberam a importância da sua presença e orientação junto dos seus filhos. Mas também há médicos que só deveriam dar aulas e arquitetos que têm um olhar estético duvidoso. Enfim, há de tudo. O que não pode haver na educação é esta sobreposição de papéis ativos no desenvolvimento de uma criança. Como diz o ditado “é preciso uma aldeia para educar uma criança” pelo que todos são importantes em diferentes perspetivas.

Inteligência emocional à distância

Em quarto lugar, este ensino à distância não parece alterar para melhor os pilares estratégicos das atitudes, capacidades e conhecimentos de um estudante. Quem tinha a atitude errada face à sua própria aprendizagem, continuou a tê-la ou, em muitos casos, piorou. Quanto muito, alguns conhecimentos beneficiaram de estratégias diferenciadas com o uso de mais vídeos, telescola e outros suportes. Mas esperar que uma criança se autorregule no ensino à distância, nomeadamente por exemplo na gestão do seu tempo e motivação, só mesmo quem não percebe nada de educação e continua a considerar que ensinar um adulto é a mesma coisa que ensinar uma criança.

Humanidade na Educação

E, finalmente, parece-me evidente que o futuro é o ensino personalizado nas suas diferentes perspetivas – conhecimentos, atitudes e motivações. A Educação é um serviço pelo que significa relação humana. Este ensino à distância mostrou de forma clara que a Educação precisa de Humanidade. Não tanto de apresentações ou vídeos bonitos. Ajudam, mas falta a orientação pessoal de quem sabe indicar o caminho. Pais e professores juntos neste caminho longo e com vários desafios onde é preciso distinguir “o que fazer” do “como fazer”, ajudando ao mesmo tempo as crianças e jovens a perceberem que o caminho só se faz com esforço e empenho. Mas, no final, o que vamos todos realmente recordar é de termos ultrapassado mais um desafio.

Este ensino à distância, infelizmente, distancia-se deste processo de aprendizagem para toda a vida que é uma estrada longa e com um fim… distante.